Segunda-feira, Setembro 29, 2008
Não sei se era noite de lua cheia.
Podia-se ver o mar e sentir a brisa fria, aplacada apenas pela roupa de lã.
Sentada num barquinho emborcado e encalhado na areia.
Ela sorria e pensava, enquanto tomava mais um gole daquele vinho amargo: encalhada estava ela.
Depois do segundo copo, o vinho já descia macio e os goles eram mais ligeiros e urgentes.
Urgente também era a vontade do ósculo de boca,
trocado pela primeira vez, entre uma ida e vinda da onda do mar...
Com mais tempo foram-se descobrindo e hoje, um ano após, o mar continua brilhante,
a onda vai e vem cem mil vezes sem fim; a lua, lá no alto, contempla e ri;
apenas um deles se lembra, com gosto amargo do vinho entre os lábios.
Fabiola Barreto
-
9:20 PM
Comente aqui:
Terça-feira, Setembro 09, 2008
Choro sem motivo
Não me sinto nem um pouco amada
Sou a última das pessoas
A suja, a desprezada, a mais indigna
Vontade de não mais existir...
Mas isso tem explicação
E um nome, com três letras:
TPM
Será que amanhã passa?

Fabiola Barreto
-
8:46 PM
Comente aqui:
Quinta-feira, Setembro 04, 2008
DESCONSTRUÇÃO
Roubaram a minha infância
Tiraram o cheiro da comida da esquina
Os olhos verdes que espreitavam à janela
O sal que corroia a tudo
Mas também trazia os viajantes de longes lugares
O que existe agora é graxa, máquinas, carros
Tiraram o barulho da minha infância
O boneco mascarado que transitava pela rua
Na semana santa
O menino tocando triângulo anunciando o néctar da gueixa
O homem que passava fabricando fogo e distribuindo doces
Em seu lugar há silêncios roucos e vazios
Venderam o escritor da minha infância
Não há mais índios, alta sociedade, nem povo da fazenda
Pessoas não conversam mais na calçada
As janelas já não espiam o que se passa lá fora
A chuva não faz mais festa nas bicas
Em seu lugar há portas de rolo e cadeados
Estreitaram a rua da minha infância
Só a igreja continua imponente
Mas o mercado parece casa de bonecas
Na praça não se passeia mais
O cinema fechou
Em vez da música no rádio há o eco no ouvido
Por favor, devolvam a minha infância
Dêem voz a ela
Tirem-lhe as cadeias
A minha infância está perdida
E fotos, sonhos e lembranças
E o que restou daquele tempo?
EU!
Fabiola Barreto
-
1:34 PM
Comente aqui:
|

E-mail
Arquivos
Blogs Rapadura
Bits
alteregos
particularidades Quintanares
prometeu atormentado
existencia
100licença
perfidias
Blogger
|